06 fevereiro 2006

SERÁ QUE SABEMOS PENSAR

Ao ser informado de que uma das disciplinas que você vai estudar neste ano chama-se filosofia, você certamente se perguntará: O que é filosofia? Para que serve?

Não se trata de conceituar ou mesmo de definir a filosofia como ramo do saber. Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel e inúmeros outros filósofos já o realizaram com muito mais propriedade do que aqui se poderia fazer. Importa, na realidade, caracterizá-la como disciplina acadêmica, objeto de indagação e de investigação.

Quando se fala em ensino de filosofia, imediatamente surgem três questões: ensinar o quê? Ensinar para quê? Como ensinar? Ou seja, por que ensinar filosofia? Antes de qualquer tentativa de resposta, nada mais oportuno que parafrasear Kant. Esse filósofo, negando a possibilidade de se aprender filosofia, afirmava não ser possível ensinar filosofia, mas somente ensinar a filosofar.


APRENDENDO A PENSAR MELHOR

É lugar-comum a afirmação de que os jovens ingressam nas universidades sem saber raciocinar, pensar ou estudar. Diante dessa evidência, a filosofia pode ajudá-los para que aprendam a pensar.

Mas o que significa isso?

Para a maioria dos alunos, as razões por que se estuda ou se deve estudar filosofia confunde-se com os objetivos do ensino em geral. Ou seja, supõe que o aluno adquira hábitos de pesquisa, treino de raciocínio, espírito crítico, criatividade, imaginação, participação dialogante, etc. Tais alunos esquecem que esses são objetivos gerais de todo o ensino, e não especificamente da filosofia.

Por quê?

Por que o papel da filosofia não é fazer pensar, mas fazer pensar melhor.

Portanto podemos presumir que a filosofia não motiva o indivíduo a pensar, mas o faz pensar melhor porque fortalece as habilidades de pensamento que ele já possui.

A filosofia é uma disciplina que estimula o aluno a desenvolver suas habilidades cognitivas, envolve-o em diálogo disciplinado para que aprenda a raciocinar em conjunto com os demais, desafia-o a pensar sobre conceitos significantes da tradição filosófica e, acima de tudo, amplia sua capacidade de pensar por si mesmo quando confrontado som situações-problema.

Mas daí pode surgir uma pergunta?

O que é a filosofia?

A filosofia é daquelas coisas que parece que todos sabem o que é, mas quando nos perguntamos o que é, não é tão fácil de explicar. De fato, frequentemente usamos o termo filosofia dando a impressão de que sabemos a que estamos nos referindo. Com efeito, ao nos interrogarmos sobre o que é filosofia, as respostas oriundas do senso comum são as mais diversas e variadas.

Uns pensam que filosofia é uma maneira subjetiva de ver a realidade, outros que a filosofia é uma atitude face à vida que cada um assume para si. Há os que pensam que a filosofia é um conhecimento abstrato, difícil, distante da vida, que não se pode provar e que, por isso, é destituído de valor, e assim por diante. Também falamos de filosofia de vida, de filosofia de trabalho, de filosofia da escola, da universidade.

Da mesma forma, se verificarmos o que os filósofos pensam em torno do que seja a atividade filosófica, há uma diversidade de concepções em conformidade com os sistemas, correntes e orientações filosóficas existentes.

Por isso, não podemos afirmar que haja apenas uma única e unívoca definição de filosofia. Não obstante, temos que buscar uma compreensão prévia de filosofia e do sentido da atividade filosófica.

REFLEXÃO CRÍTICA

Um bom caminho para compreendermos o que seja a filosofia e qual é o significado do ato de filosofar é nos interrogarmos a respeito do que leva uma pessoa a filosofar.

Com efeito, a filosofia, como atividade culturalmente significativa, surge num determinado momento histórico, no século VII a.C., com os gregos, como resposta à exigência de elaboração de um discurso racional capaz de levar a termo a tarefa de responder criticamente às interrogações fundamentais acerca do mundo e da existência humana.

A palavra "filosofia" aparece na Grécia, nos escritos de Pitágoras, que não querendo definir-se como "sábio" (em grego: sophos) prefere autodeterminar-se "philos-sophos", ou seja, amante do saber, aquele que busca a sabedoria. No séc. V a.C., o filósofo Heráclito define melhor o conceito original do vocábulo FILOSOFIA, como "a busca da compreensão da realidade total", em todas as suas formas, de maneira sistemática e disciplinada.

O trabalho filosófico é essencialmente teórico. Mas isto não quer dizer que a filosofia seja pura razão, à margem do mundo; muito menos, que seja um corpo de doutrina acabado, com determinado conteúdo fixo. A filosofia é um processo sempre dinâmico de apreensão das significações históricas da realidade humana. É a procura amorosa da verdade.
Para Sócrates, uma vida que não é examinada não merece ser vivida. Isto nos diz que o filosofar é preocupar-se com os princípios primeiros de nossa existência e da realidade total. O refletir do ser humano sobre estas questões o tornava "filósofo".

A atitude de filosofar nasce, primeiramente, a partir de nossa inquietação, que acende em nós o desejo de ver e conhecer. Em segundo lugar, através da admiração, pois é a condição de onde deriva a capacidade de problematizar, compreender e construir. Isso caracteriza a filosofia não como posse da verdade, mas como busca humildade, constante e dinâmica da essência da vida. Em terceiro lugar, a filosofia nasce a partir do sentimento de angústia o ser que somos se revela naquilo que ele é em sua originalidade: nada, abertura, pura possibilidade. Essa abertura à transcendência, coloca o ser humano diante de si mesmo como projeto, tarefa a realizar.

O pensar filosófico é um pensar a trama dos conhecimentos do cotidiano. Por isso, a filosofia se encontra no seio da história. No entanto, está simultaneamente mergulhada no mundo e fora dele: eis o paradoxo enfrentado pelo filósofo. O filósofo inicia a caminhada a partir dos problemas da existência, mas precisa afastar-se deles, consciente e criticamente, para melhor compreendê-los, retornando, depois, a fim de propiciar subsídios para as mudanças.

Somos filósofos quando nos colocamos a pensar a realidade circundante, de maneira crítica e responsável. Assim, exercendo-nos, neste momento, no ato de filosofar, percebemos que a filosofia tem sido, ao longo da história, fator de crítica e ensaio de alternativas para uma vivência humana mais harmônica e equilibrada. Por isso mesmo, tem incomodado a muitos. A história registra muitas tentativas em destruí-la, desqualificá-la, negá-la. Os tiranos, os mistificadores, os dominadores, e todos os interessados na alienação e mediocridade do povo preferem uma consciência de rebanho, de fácil manipulação, cativa e obediente, a um questionamento sistemático e profundo sobre a realidade. Não foram poucos os filósofos que pagaram com a vida ou a perda da liberdade a ousada postura de filosofar sobre o seu tempo.

Cabe a nós o exercício do "filosofar", isto é, apreender de forma significativa a nossa cultura; a leitura crítica da realidade; e a práxis transformadora do mundo. Assim, a Filosofia não é somente interpretação do mundo, mas o projeto de transformação do homem / mulher, ele é política e ética.

A Filosofia surge quando se põe em jogo o pensar, tornando-se objeto de reflexão (reflectere = "fazer retroceder", "voltar atrás"). Por isso o filósofo é aquele que conhece a história do pensamento, sua evolução, involução, crise, avanços.

A filosofia não é um conjunto de conhecimentos prontos ou um sistema fechado em si mesmo. Ela é um modo de pensar, uma atitude, uma postura diante do mundo, descobrindo os significados mais profundos. A Filosofia é uma prática de vida que, de forma refletida, busca pensar os acontecimentos do cotidiano além de sua pura aparência. Assim sendo, ela pode e deve considerar todo e qualquer objeto. Pode considerar a ciência, a religião, a arte, uma história em quadrinhos ou uma canção popular.
A Filosofia, portanto, parte do que existe, critica, questiona, vislumbra possibilidades, faz-nos entrever outros mundos e outros modos de compreender a vida.

Bem, chegamos ao final de nossa primeira aula. Vimos como a filosofia prepara o aluno para pensar nas outras disciplinas, na medida em que o incita a fazer uso de habilidades de pensamento que precisam ser aprendidas para pensar nas outras matérias.

O ensino da filosofia, assim concebido transforma a aula de filosofia em uma proposta de investigação dialógica cooperativa sobre o caráter da existência humana. Essa questão nós iremos aprofundar na próxima aula.

Antes de passar para a Aula 2, responda as questões a seguir e verifique sua aprendizagem.

Até a próxima aula!

EXERCÍCIOS


Se lhe perguntassem: “O que significa estudar filosofia?”, o que você responderia?

Quais seriam as características do pensamento filosófico?

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